“A Serra do Japi é um dos componentes topográficos mais importantes das Serranias de São Roque – Jundiaí (Almeida, 1964). Ela faz parte de uma série de pequenas serras mantidas por rochas extremamente resistentes, que ocorrem no entremeio do maciço xistoso existente entre a Bacia de São Paulo e a Depressão Periférica Paulista.Nesse sentido, o Japi é uma pequena serra pertencente ao mesmo agrupamento em que se situa o Jaraguá, o Pirucáia, o Sabóo, o Boturuna e a Guaxinduva. Cada uma das lentes de quartzito encaixadas no meio das grandes faixas de xistos deu oporturnidade para a formação e permanência na paisagem de um pico ou pequena serra. As pequenas lentes foram modeladas em picos isolados, comportando dentilhado assimétrico (Jaraguá) ou setores com formas piramidais (Saboó e alguns sub-núcleos do próprio Jaraguá). A mais acidentada dessas pequenas serras mantidas por feixes de quartzitos intercalados com xistos é a Serra de Guaxinduva, situada entre Cabreúva e Jundiaí.

Dentre as pequenas serras quartzíticas (1100-1200 m) interpostas entre as colinas de São Paulo (780-830 m) e as colinas da Depressão Periférica Paulista (650-700 m) destaca-se a Serra do Japi, servindo de moldura sul para o sítio urbano da própria cidade de Jundiaí e da regiâo serrana colocada na zona de fronteira entre Jundiaí e Cabreúva. A silhueta do Japi, devido ao seu topo plano e seus bordos escarpados funciona como se fosse um pequeno platô inclinado para WSW.Entre as suas congêneres, o Japi se destaca exatamente pela existência dessa espécie de platô de cimeira em seu topo, por oposição aos núcleos piramidais ou aos dentilhados assimétricos observáveis nas outras serras. Trata-se no caso de uma velha superfície aplainada de cimeira, que foi capaz, no passado, de reduzir o feixe de quartzitos a um quase plaino, ou mesmo à condição de uma planície de erosão. Tal superfície que, no passado, deveria ter sido muito mais ampla em relação ao conjunto do maciço xistoso regional, foi sujeita a sucessivos levantamentos de conjunto (epirogênese), enquanto que por erosão diferencial persistente, a massa de quartzitos ficou em posição saliente, ao mesmo tempo em que os xistos de todos os tipos, menos resistentes, foram mais dissecados e rebaixados pela ação combinada de intemperismo físico processos morfoclimáticos alternantes e erosão fluvial vinculada.A região de Jundiaí, envolvendo a Serra do Japi e as colinas da Bacia de Jundiaí, constitui-se numa das áreas chaves da geomorfologia do setor interior do Planalto Atlântico Paulista. Embora tenha sua própria complexidade geológica em função sobretudo das estruturas de xistos e quartzitos pré-Cambrianas regionais, seus maiores problemas são de ordem geomorfológica.

Do ponto de vista geológico, o fato mais importante está relacionado à existência de um feixe de quartzitos de excepcional ordem de grandeza para o conjunto da série São Roque-Açunguí na região. Tem-se que imaginar uma ação persistente de subsidência de antigas faixas de areias do geossinclinal que deu origem ao maciço xistoso pré-Cambriano regional, Esse espessamento de areias a nível relativamente descontínuo no conjunto das formações epi-continentais da série São Roque – Açunguí, respondeu pela transformação posterior da grande massa de areias em quartzitos epimetamórficos. Ao norte e ao sul da faixa de espessamento, durante o dobramento geral dos sedimentos do geossinclíneo regional formaram-se batólitos e stocks de granitos em corpos alongados segundo eixo geral das estruturas dobradas. Desde o inicio do Paleozóico até o entreato Devoniano – Carbonifero, a região comportou-se como uma região cordilheirana, em prolongada fase de rebaixamento e arrazamento. Um paleoplano devônico existente na região de Itararé – Itapeva, e que se prolonga pela base do Devoniano na Serrinha do Paraná, demonstra que as estruturas dobradas foram quase totalmente arrasadas ao SW do Estado de São Paulo. 0 Japi e suas áreas vizinhas ainda eram medianamente elevadas até essa época.No Carbonifero as coisas foram mais complicadas para a região de Jundiaí. As geleiras continentais que passavam a níveis superiores aos do Japi e que contribuíram para criar setores aplainados e setores deprimidos em rochas menos resistentes, existentes ao NNW, W e SW da pequena massa de quartzitos resistentes, deram oportunidade para formar pequena lagoa com sedimentação varvitica ao N do Japi (atual região de bairro rural da Ponte Alta, em Jundiaí).Presumívelmente, outros setores carboniferos e permianos devem ter estado acima dos depósitos basais, varvíticos, do “out lier” carbonifero de Ponte Alta. Tais constatações evidenciam que a região de Jundiaí seria constituída por restos rebaixados da antiga cordilheira São Roque Açunguí, sob a forma de serras rasas, situadas a cavaleiro de pequenas depressões lacustres intermontanas, dotadas de lagos periglaciais.

Entre o Carbonífero e o Cretáceo Inferior, certamente os sedimentos que se estendiam pelo espaço da atual Depressão Periférica Paulista deviam penetrar através de línguas estreitas por cima dos depósitos carboníferos dos atuais “out liers” carboníferos de Ponte Alta (jundiaí) e Souzas (Campinas). A circundesnudaçáo pós-cretáceo (Ab’Sáber, 1948, 1964) removeu os sedimentos da borda da Bacia do Paraná, por ocasião da primeira metade do Terciário, e somente não pode atingir a base das antigas depressões intermontanas, “que pouparam sedimentos carboníferos hoje na situação de -out liers”.=

0 importante a assinalar é que ao fecho da sedimentares cretácica superior, no interior da Bacia do Paraná, os quartzitos do paleomaciço do Japi – até então salientes em relação aos sedimentares paleozóicos do bordo da grande Bacia do Paraná – foram reaplainados por processos erosivos mais ou menos complexos. 0 aplainamento responsável pela criação da superfície de cimeira regional deve ter efetuado sobretudo no decorrer do Cretáceo Superior, até possivelmente o Paleoceno-Eoceno. 0 aplainamento do Japi, principal testemunho da fase de aplainamento de cimeira conhecida por superfície das cristas médias, de De Martonne (1940), é certamente o mais representativo dos aplainamentos pós-superfície do Altos Campos (Bocaina – Mantiqueira), identificada por de Martonne.

Foi o o soerguimento da superfície do Japi, acompanhada da pari passú por processos de desnudação marginal na borda da Bacia do Paraná que iria dar origem à história geomorfológica mais recente da região de jundiaí. Dissecações e rebaixamentos da área de rochas menos resistentes a partir do entorno da velha depressão intermontana lacustrina do Carbonífero Superior, vieram dar em resultado numa espécie de superfície aplainada parcial, neogênica, situada a 250 350 m abaixo da velha cimeira aplainada do Japi. Esta superfície de compartimento de planalto regional – talvez contemporâneo a do fecho da sedimentação na Bacia de São Paulo – cortou indiferentes xistos, gnaisses e outras rochas granitizantes, desde uma cota que hoje se projeta na meia serra baixa do Japi até as elevações da Serra do Jardim e dos maciços divisores de Itatiba o Serra dos Cristais em Jundiaí. A partir dai, ao mesmo tempo em que houve reativação da epirogênese, diversas fases de dissecações se alternam com fases de formação de longas rampas, vinculadas sempre ao piemonte, da fase norte da Serra do Japi. Aparentemente houve oportunidade para a formação de dois níveis de pedimentação embutidos, a partir do recortamento da superfície aplainada regional (superfície neogênica). 0 mais baixo desses níveis de rampas de pedimentação (plainação lateral restrita em relação ao eixo maior do atual vale do rio Jundiaí) comportou derruição de regolitos, conformação de depósitos quaternários antigos (Pleistoceno Médio – Pleistoceno inferior), daquilo que se pode reconhecer por Bacia de Jundiaí. No início de sua formação a Bacia de Jundiaí foi marcada por forte ação das torrentes provindas do Japi. Dai a formação de lençóis aluviais de seixos predominantes de porte pequeno e médio – (menores ou iguais a um punho) – que atapetem a base da bacia, em numerosas áreas de ocorrências. Tais cascalheiras basais, de 1 a 2 m de espessura média. são sempre encimadas por depósitos areno-argilosos de derruição de rochas quartzíticas e xistosas alteradas ou semidecompostas. Teria havido um clima úmido mais pronunciado entre a fase da rampa superior de pedimentação e a fase da gênese da rampa intermediária. Um terceiro nível de pedimentação já se comportando como um terraço intermediáro afetou a região após a dissecação das rampas e depósitos anteriormente formados. Logo a seguir, depósitos de terraços com seixos muito maiores do que aqueles gerados na base das camadas de jundiaí vieram a se formar ao longo do rio Jundiaí e do rio Quilombo, e nos estreitos vales dos rios provenientes diretamente da Serra do Japi. 0 calibre do cascalho fluvial e a sua posição em forma de depósito de terraços ou de eventuais leques aluviais documentam um fase de morfogênese mecânica mais acentuada e de forte torrencialidade geral de toda a drenagem da Bacia do jundiaí (Pleistoceno Inferior – Pleistoceno Médio).Após aquela fase, os rios principais – sobretudo o rio Jundiaí – depositaram areias em forma de camadas cruzadas em bolsas no entremeio do assoalho rochoso do fundo dos vales regionais. Ao fim desse ciclo sobreveio o ciclo seco do Pleistoceno Superior Terminal (13,000 18.000 m) quando a região foi bem mais fria e relativamente muito seca, comportando chão pedregoso em diversos setores das colinas regionais. Chegava aqui na fase primeira da formação das “stone lines”.Esta fase de formação de chão pedregoso comportava um tapete de fragmentos de pedra desde os sopés do Japi, em áreas interfluviais colinosas alongadas até quase todos os níveis escalonados de relevo, elaborados ao longo do Quaternário. Na estrada de Jundiaí para Itu foram constatados horizontes de fragmentos de rochas acima de formações xistosas e gnaisses, com porte variando desde um punho à cabeça de um homem. Nos arredores dos lajedos da Seria do Jardim no limite Valinhos – Vinhedo constatamos “stone fines” de fragmentos, que vão desde a escala do cm até no máximo 8 – 12 cm. Nos grandes cortes feitos para a construção da Via Anhanguera existiam seixos e fragmentos de quartzitos de porte pequeno a médio, enterrados entre 40 e 0,80 m de profundidade, representando áreas de fornecimento misto de componentes detríticos: fragmentos de antigos diques de quartzo expostos e seixos re-trabalhados da base reexposta da Formação jundiaí.

Aziz Ab’Saber

O texto acima, realizado e publicado pelo Dr. Aziz Nacib Ab’Sáber em 16 de novembro de 1982, foi compilado dos documentos que constituíram o processo de Tombamento da Serra do Japi.