Serra contorno reduzidoAs florestas que cobrem a Serra do Japi pertencem ao que foi definido, pelo Mapa de Vegetação do Brasil do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 1993, como Floresta Estacional Semidecidual. Esse tipo de vegetação tem ampla distribuição no Brasil, ocorrendo no norte do Paraná, em São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul e Mato Grosso, atingindo inclusive o Paraguai e o norte da Argentina. É uma vegetação com alta diversidade florística (número de espécies de plantas) e, juntamente com outras formações vegetais, compõe o Domínio da Mata Atlântica.

Apesar da aparência homogênea, foram identificados três tipos de vegetação na Serra do Japi: a floresta mesófila semidecídua, a floresta mesófila semidecídua de altitude e os lajedos rochosos. O termo mesófila refere-se a plantas que crescem em ambientes em que existem condições estáveis de temperatura e umidade, fato que nem sempre ocorre na Serra do Japi, onde existe uma sazonalidade evidente, com uma estação fria e seca – inclusive com eventuais geadas- de abril a setembro e uma quente e úmida de outubro a março. Por esse motivo, foi sugerido que tal termo não seja utilizado para definir esse tipo de vegetação. O termo semidecídua refere-se ao fato de que algumas árvores, nesse tipo de floresta, perdem parcial ou totalmente suas folhas na estação fria e seca. Além disso, esses tipos básicos de vegetação também não são homogêneos em toda a sua extensão. Isso se deve, possivelmente, a diferenças na composição do solo ao longo da Serra, à sua topografia e à presença de manchas de vegetação em diferentes estádios sucessionais.

IMG_4413_C2As florestas semidecíduas são relativamente bem estudadas, principalmente no Estado de São Paulo. No Japi, foram registradas, até o momento, 303 espécies arbóreas, pertencentes a 176 gêneros e 63 famílias, o que coloca essa área em posição de destaque em relação à diversidade da flora do Estado. Essa lista de espécies, no entanto, é parcial, já que há áreas ainda não amostradas na Serra e os estudos restringiram-se às espécies de árvores. Além dos estudos florísticos (levantamento de espécies), foram feitos estudos fitossociológicos comparando os dois tipos florestais da Serra, ou seja, as florestas das áreas mais baixas (semidecídua) e as das áreas mais altas (semidecídua de altitude). Além disso, foi estudada a relação entre os diferentes tipos de vegetação e a composição do solo nos locais em que elas ocorrem. Outros trabalhos abordaram variações sazonais na produção de serapilheira e no seu teor de nutrientes (por exemplo fósforo e cálcio), além da época de floração e frutificação das espécies arbóreas, também comparando as duas áreas. Os padrões de dispersão de sementes também foram estudados na Serra, mas faltam estudos sobre interações planta – polinizador. Estudos mais detalhados sobre a composição de espécies, a estrutura fitossociológica da vegetação e dos processos que nela ocorrem ao longo do tempo permitirão o estabelecimento de modelos para a recuperação de áreas degradadas do Sudeste brasileiro, o que torna a Serra do Japi uma importante fonte de conhecimento científico.

Nas áreas altas da Serra do Japi e nas suas encostas, o solo possui textura cascalhenta, coloração clara e freqüentes afloramentos rochosos, além de baixa capacidade de reter água, forte acidez e alta concentração de alumínio. Já as áreas baixas, que funcionam como vales de deposição de material, possuem solo de textura arenosa, coloração vermelha e sem afloramentos, além de serem mais nutritivos e terem boa capacidade de retenção de água. Essas informações estão nos trabalhos de Rodrigues (1986), Rodrigues e colaboradores (1989) e Rodrigues & Shepherd (1992). Eles observaram que entre os dois extremos de altitude da Serra existe uma variação contínua nas características do solo e que essa variação corresponde à variação nas características da vegetação, como composição de espécies e altura do dossel. Com base nessas observações eles sugeriram que o solo, além do clima, é um importante fator na determinação do tipo de vegetação existente no Japi.

As árvores decíduas e semidecíduas da Serra do Japi perdem suas folhas principalmente na estação fria e seca (abril a setembro), sendo que o pico de queda das folhas é em agosto na floresta de altitude e em setembro na floresta semidecídua (Morellato-Fonzar, 1987; Morellato, 1992a). Na floresta de altitude as folhas correspondem a 70% da serapilheira e na floresta semidecídua a 64% (Morellato, 1992b), sendo essa época, portanto, o pico de produção de serapilheira. Essa autora sugeriu que a queda das folhas na está associada principalmente ao estresse hídrico provocado pela falta de chuvas na estação seca e à diminuição da temperatura. A quantidade de folhas caídas foi maior na floresta semidecídua do que na semidecídua de altitude, o que pode estar relacionado ao fato de que na floresta semidecídua há um maior número de espécies de árvores decíduas e semidecíduas. O brotamento de folhas na maioria das árvores da é em outubro, com a chegada das primeiras chuvas, e na floresta semidecídua de altitude há um segundo fluxo de folhas novas de abril a junho (Morellato e colaboradores, 1989).

Contorno Serra - corujinha 1Esses autores observaram ainda que também a floração é sazonal (agosto a dezembro), sendo que o pico na floresta de altitude é em setembro-outubro e na semidecídua em novembro. Na floresta de altitude, as árvores apresentam padrão de floração do tipo “cornucópia”, em que uma grande quantidade de flores é produzida por várias semanas. Nessa floresta, Morellato e colaboradores (1990) observaram uma grande sincronia intra-específica (entre os indivíduos de uma mesma espécie) na produção de flores em Guapira oppositaPera obovataTapirira marchandii e Rapanea ferruginea. Essas espécies são dióicas e, portanto, essa sincronia é importante para garantir a polinização. Já na floresta semidecídua, Morellato & Leitão-Filho (1990) observaram que a floração apresenta um padrão do tipo explosivo, em que ocorre a produção de uma quantidade excepcional flores durante um curto período de tempo (no máximo duas semanas), o que pode estar relacionado à maior sazonalidade climática nas áreas mais baixas da Serra.

Os padrões de frutificação e sua relação com a síndrome de dispersão nas árvores da Serra do Japi são explicados no capítulo de Morellato & Leitão-Filho (1992). Eles observaram que a maioria das árvores da Serra são perenifólias e têm síndrome zoocórica. Essas espécies são mais abundantes no dossel e no sub-bosque, locais em que vivem seus dispersores. Essas espécies frutificam durante todo o ano, mas há uma queda na produção de frutos na estação seca e um pico no início da estação úmida, em setembro-outubro. A maior produção de frutos nesse período pode estar associada à maior abundância de dispersores nessa época, principalmente aves e morcegos. Além disso, as sementes têm a possibilidade de germinar no início do verão, e as plantas jovens podem desenvolver suas raízes durante essa estação, antes da próxima estação seca. Já as espécies anemocóricas são mais abundantes no estrato emergente e são, em sua maioria, decíduas ou semidecíduas. Além disso, frutificam de julho a outubro, antes do início das chuvas e época em que os ventos são mais fortes. A condição emergente, somada à perda de folhas e à presença de ventos facilitam a dispersão nessas espécies, que por ser anemocórica e não depender de dispersores, está mais relacionada a fatores climáticos.

Por fim, Cardoso-Leite (2000), estudando a vegetação da Reserva Biológica Municipal da Serra do Japi, verificou a presença de espécies consideradas raras ou em extinção no Brasil ou no Estado de São Paulo. São elas Citronela megaphyla, Croton floribundus, Macherium villosum, Myrocarpus frondosus, Ocotea bicolor, Persea venosa, Roupala brasiliensis, Trichilia pallens e Vitex polygama. Além disso, a autora observou que a distribuição da vegetação é influenciada pelo relevo e pela presença de cursos d’água. Ela elaborou um mapa de vegetação que lhe permitiu verificar que a Reserva vem cumprindo seu objetivo de conservação dos recursos naturais, espécies e ecossistemas que ocorrem na região. Como as formações florestais estendem-se para além dos limites da Reserva, ela sugere que esta seja ampliada na sua porção sudoeste. Já que essa porção faz divisa com o município de Cabreúva, seria necessário transformá-la em uma Unidade de Conservação intermunicipal ou Parque, que segundo a autora poderia se chamar “Parque Estadual da Serra do Japi”.

Referências Bibliográficas:

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