espinho2A maioria dos mamíferos da Serra do Japi é de espécies generalistas, ou seja, que têm uma dieta bastante variada. Graças a isso, elas convivem bem com as perturbações causadas pelo homem, já que são pouco exigentes em termos de alimentação, inclusive podendo eventualmente usar os pomares e atacar as criações de animais da região. Boa parte das espécies é noturna, entre as quais os morcegos, que foram os mamíferos mais estudados da Serra. Seis espécies de morcegos foram estudadas a fundo e foi observado que elas usam alimentos diferentes, o que pode ser um importante fator para que elas coexistam no mesmo local.

As espécies de mamíferos da Serra do Japi são em geral de ampla distribuição, com exceção do sagüi C. aurita e do morcego C. doriae, ambos endêmicos do Sudeste brasileiro. A maioria é oportunista e de hábitos generalistas, utilizando folhas, frutos, sementes, invertebrados e pequenos vertebrados na sua alimentação e convive bem com alterações causadas pelo homem. A cutia D. azarae, por exemplo, cuja dieta é composta de frutos, sementes e vegetais suculentos, é encontrada em plantações e pomares da região, onde vai em busca de alimento. Da mesma maneira o furão Galictis sp. e o gambá D. marsupialis podem atacar galinhas em criações e o veado-mateiro M. americana é visto se alimentando dos brotos de vegetação induzidos por queimadas. A jaguatirica F. pardalis, no entanto, apesar de eventualmente se alimentar de animais domésticos, necessita de áreas grandes para sobreviver e por isso tem sofrido bastante com a fragmentação do seus habitats causada pelo ação humana. Há também na Serra espécies com hábitos alimentares altamente especializados, como o morcego C. doriae, que se alimenta basicamente de frutos de Ficus.

Quati site9Boa parte dos mamíferos da Serra do Japi inicia suas atividades no crepúsculo ou à noite. Algumas são diurnas, mas restringem suas atividades ao amanhecer e ao entardecer, repousando nas horas mais quentes do dia, como por exemplo o bugio A. fusca, o sagüi C. aurita, o esquilo Sciurus sp. e a capivara H. hydrochaeris. Há ainda espécies que estão ativas durante todo o dia, como o quati N. nasua e a cutia D. azarae.

Essas informações constam do capítulo de Marinho-Filho (1992), que traz a lista de mamíferos registrados na Serra do Japi (ver Tabela) e fornece informações de história natural dessas espécies, em especial de morcegos. Segundo esse autor, entre as espécies de mamíferos que quase certamente ocorrem na Serra, mas que ainda não foram registradas, estão marsupiais dos gêneros Marmosa e Monodelphis, além de Lutreolina crassicaudata e Chironectes minimus, bem como os roedores Oryzomys subflavus, Calomys callosus, C. tener, Nectomyssquamipes e dos gêneros Rhipidomis, Bolomys e Proechimys. Além disso, é provável a ocorrência de outras espécies de tatus, como Euphractussexcinctus e do gênero Cabassous e não seria surpreendente a existência de outros pequenos felídeos silvestres na região. O ratão-do-banhado M. coypus, espécie originária do sul da América do Sul, foi provavelmente introduzido no Japi.

morcegoOs morcegos da Serra do Japi foram estudados em detalhe e as informações a seu respeito constam dos trabalhos de Marinho-Filho (1985, 1991) e de Marinho-Filho & Sazima (1989). Foram estudadas seis espécies, quatro frugívoras (Sturnira lilium, Carollia perspicillata, Artibeuslituratus e A. planirostris), uma nectarívora (Anoura caudifer) e uma hematófaga3 (Desmodus rotundus). S. lillium alimenta-se basicamente de frutos do gênero Solanum e C. perspicillata é especialista em frutos do gênero Piper e ambas seriam os dispersores de sementes dessas plantas. A. lituratus e A. planirostris são generalistas e utilizam frutos de várias espécies, inclusive de pomares, forrageando em diferentes estratos da vegetação. D. rotundus ataca as criações de gado da região para se alimentar. Dessa forma, há uma baixa sobreposição entre as dietas dessas seis espécies de morcegos, o que pode ser um fator importante para a sua ocorrência na mesma área. Com exceção de A. caudifer, as espécies estão ativas praticamente todo o ano. O período de atividade de A. caudifer, de junho a dezembro, corresponde à época de floração da maioria das plantas do Japi, ou seja, época de maior produção de néctar. A reprodução dos morcegos da Serra ocorre nos meses de verão, com exceção de D. rotundus, que se reproduz durante todo o ano.

Referências Bibliográficas:

MARINHO-FILHO, J. S. 1985. Padrões de atividades e utilização de recursos alimentares por seis espécies de morcegos filostomídeos na Serra do Japi, Jundiaí, São Paulo. Dissertação de Mestrado. Universidade Estadual de Campinas, Campinas.

MARINHO-FILHO, J. S. 1991. The coexistence of two frugivorous bat species and the phenology of their food plants in Brazil. J. Trop. Ecol. 7(1): 59-67.

MARINHO-FILHO, J. S. Os mamíferos da Serra do Japi. In História natural da Serra do Japi: ecologia e preservação de uma área florestal no sudeste do Brasil. (L. P. C. Morellato org.), Editora da Unicamp, Campinas.

MARINHO-FILHO, J. S. & SAZIMA, I. 1989. Activity patterns of six phyllostomid bat species in southeastern Brazil. Revta. Brasil. Biol. 49(3): 777-782.

 

Espécies observadas na Serra do Japi.
Dados obtidos de Marinho-Filho (1992).

  • Ordem
    • Família
      • Espécie, (nome popular)
  • Marsupialia
    • Didelphidae
      • Didelphis marsupialis, (gambá, raposa)
      • Philander opossum, (cuíca, cuíca-de-quatro-olhos)
  • Edentata
    • Dasypodidae
      • Dasypus novemcinctus, (tatu-galinha)
  • Chiroptera
    • Phyllostomidae
      • Anoura caudifer
      • Carolia perspicillata
      • Sturnira lilium
      • Artibeus lituratus
      • Artibeus planirostris
      • Desmodus rotundus, (vampiro-comum)
      • Vampyrops lineatus
      • Chiroderma doriae
    • Vespertilionidae
      • Myotis nigricans
    • Molossidae
      • Molossus molossus
  • Primates
    • Callitrichidae
      • Callithrix aurita, (sauim, sagüi)
    • Cebidae
      • Callicebus personatus, (sauá)
      • Alouatta fusca, (bugio)
  • Carnivora
    • Canidae
      • Cerdocyon thous, (cachorro-do-mato, lobinho)
    • Procyonidae
      • Nasua nasua, (quati)
    • Mustelidae
      • Eira barbara, (irara)
      • Galictis sp., (furão)
    • Felidae
      • Felis pardalis, (jaguatirica)
      • Felis concolor, (onça-parda, suçuarana)
  • Artiodactyla
    • Tayassuidae
      • Tayassu tajacu, (cateto, caititu)
    • Cervidae
      • Mazama americana, (veado-mateiro)
  • Rodentia
    • Sciuridae
      • Sciurus sp., (serelepe, esquilo)
    • Erethizontidae
      • Coendou villosus, (ouriço-cacheiro)
    • Caviidae
      • Cavia aperea, (preá)
    • Hydrochaeridae
      • Hydrochaeris hydrochaeris, (capivara)
    • Dasyproctidae
      • Dasyprocta azarae, (cutia)
    • Capromyidae
      • Myocastor coypus, (ratão-do-banhado)
  • Lagomorpha
    • Leporidae
      • Sylvilagus brasiliensis, (tapiti)

Esquilo color Neco copy